sábado, 30 de agosto de 2008

A VIAGEM

Fui talvez o décimo terceiro a entrar no ônibus. Poltrona 19, eu lá me sentei. Não havia ninguém ao meu lado. Preferi o corredor, é o corredor. Muita gente prefere a janela, mas eu, eu prefiro o corredor. Na janela a gente só ver mato, jumento, cavalo, bode e muito raramente pessoas. As pessoas passam rápidas pela visão da gente. Não percebemos seu semblante. A janela não tem alma. No corredor sim. Gosto de ficar olhando as pessoas quando vão entrando, uma a uma. Suas fisionomias, suas roupas, suas malas suas crianças... Estas sempre são mais apressadas e curiosas. Embeocam na frente dizendo.
— Aqui, aqui, nessa aqui — batendo sobre o braço da poltrona eleita por eles para ser o seu assento e dos pais, é claro, que sempre cedem a elas.
Depois de uns dez minutos entra uma garota super bonita, bem perfumada, desejei-a, mas ela passou para a poltrona 22, sentou perto de um velho de barba branca.
Entrava e saía gente. Num canto e noutro os rostos se revezavam e eu tinha a certeza de que nunca mais as veria. Fosse bonita ou feia, cheirosas ou não, bem vestidas, mal vestidas... Eu nunca mais as veria!
Minutos após, a mesma garota que eu quis, tão cheirosa e bonita fez vômito em cima do senhor, que foi escolhido por ela para ser seu parceiro da viagem. Percebi que nem tudo que agente pensa ser bom é realmente bom.
A viagem ainda duraria mais de quatro horas além das duas que já se passara.
Foi então que entrou um senhor de seus quarenta e poucos anos, tossia. Todo mundo olhou para ele e ele pra todo mundo.
Baixo, branco de rosto vermelho, meio careca, dentes brancos e alinhados que percebia-se de longe que era uma prótese. Seus passos eram curtos, as veias das pernas inchadas, parecia ser um senhor doente. Trajava camisa branca (na verdade amarelada do tempo e também um pouco suja) uma velha bermuda jeans e uma sandália preta de couro. Olhou para todos, caminhou para o meu lado:
— Posso sentar aqui?
E eu educado, permiti.
O homem fedia como um gambá! Logo percebi que era um “bebum” e não um doente como pensei. A viagem toda tossiu ao meu lado. Não lhe dei corda em nenhum momento da viagem que logo terminou para ele. Graças a Deus! Também não poderia ser tão longa, pois o homem tinha apenas poucas moedas e não daria para pagar um percurso maior.
Mas depois entrou uma mulher de seus trinta anos, não tão bonita, mas charmosa, muito charmosa. Era uma loira de cabelos pelos ombros, soltos, lisos e penteados para a esquerda. Vez em quando passava a mão entre eles para que retomasse o seu penteado. Magra, mas gostosa. Perfumada, usava brincos de cor prata, um vestido decotado branco e transparente. Veio se aproximando e deu um leve sorriso para mim. Havia umas cinco poltronas sobrando, mas não sei porquê, foi com minha cara.
— Tem alguém sentado ai nessa poltrona ao lado?
— Não! — Respondi entusiasmado e já recolhendo as pernas para que desse passagem aquela mimosidade.
Fiquei calado, porém buscando uma maneira de começar uma conversa. Ela tirou da bolsa uns óculos de grau e em seguida um livro. Eu então perdi de vez minhas esperanças. Não ia me dar bola de jeito nenhum. Dei uma leve olhada por cima para ver de que se tratava o livro. “Os Miseráveis” de Victor Hugo. Recolhi-me novamente para o encosto da poltrona e fiquei olhando o corredor do ônibus na esperança de que entrasse mais alguém para tornar mais prazerosa a minha viagem.
Acho que começou ler o livro apenas para fazer charme, pousar de intelectual, pois não terminou nem uma pagina e logo fez o que eu menos esperava: puxou um papo.
— Tá indo para onde? — Perguntou virando-se para mim e baixando um pouco a cabeça para me ver por cima dos óculos.
— Para Umarizal. E você?
— Potiretama, Ceará.
— Mas esse ônibus não vai até o Ceará. Só até vai Itaú.
— Isso mesmo, eu vou até lá e depois pego outro até Potiretama.
— Você é de lá? — Perguntei para que assim pudesse alongar a conversa.
— Não! Sou de Alto Santo, bem pertinho de lá. É porque me casei com um cara de Potiretama e moro lá há cinco anos. Estou vindo de Natal. Fui visitar meus pais que agora moram lá.
— Nossa! Que contra mão hein? Foi a primeira vez que foi em Natal?
— Foi sim!
— Então, é casada, tem filhos...?
— Um só. E você tem filhos?
— Não. Não sou casado ainda.
— Que bom! — Exclamou ela me deixando já animado.
— Por que a alegria?
— Casamento não presta! Eu pensei que tivesse escolhido um cara bacana para me casar e deu no que deu. O primeiro ano foi até bom, mas depois...
— Depois o quê? — Insisti na conversa que ela deixou pelo caminho.
— A gente enjoa sabe... Fica monótono, cheio de confusão, ele sai com os amigos, ver TV o tempo todo, e festa que é bom... Só no primeiro ano ainda fui umas duas ou três, mas depois que veio o filho, nada! Acabou o encanto. Sexo uma ou duas vezes por semana, no máááximo duas. — Disse demonstrando total amargura pelo fato.
Fiquei espantado pelo nível da conversa em tão pouco tempo e perguntei se ela não tinha receio de conversar aquelas coisas comigo, nem me conhecia e já falando sobre suas intimidades com o marido. Ela parecia ser muito fogosa, e era.
— Ônibus é assim mesmo! Ninguém conhece ninguém e todo mundo se conhece. Agente desabafa, sabe? Posso contar a você os meus desejos mais secretos e quando você descer desse ônibus leva tudo como se fosse uma descarga de banheiro. Posso amassar sua perna assim como agora, posso lhe beijar e quando fores embora eu fico com a lembrança e você também! Quer melhor? Anônimos e íntimos. Ou prefere que essa viagem seja monótona o tempo todo, beijar relaxa sabia? E se ficar excitado, hum! Melhor ainda. Só não vamos poder fazer nada e você cuidado, que eu não me denuncio quando me excito, você sim! Já dar até pra ver.
Puxei ligeiramente a camisa para que ninguém visse e ela deu um sorriso bem sacana. Em seguida veio me beijar. Eu já estava excitado com ela me alisando. Imagina agora com o beijo.
— Você não disse que era casada? — Perguntei espantado.
— Falei casada. Não fiel. Mas cuidado se um dia for lá em Potiretama hein, sou uma santa lá e nunca traí meu marido. Não vai abrir a boca hein.
— Pra que diabos irei a Poriterama um dia?!
— Po-ti-re-ta-ma — Disse me corrigindo — Melhor assim! Se você nunca for melhor!
Nos beijamos e nos amassamos todo o caminho. Conversamos também, mas muito menos agora. Era noite e dava pra nos acariciar direitinho. As luzes apagadas, muita gente dormindo (ou fingindo)... Não importava, como ela falou, ninguém nos conhecia mesmo.
Esqueci então de olhar quem entrava e quem saía. Estava bem mais ocupado agora.
— Espera aí, você disse que nunca traiu seu marido lá em Poriterama, potiretama, sei lá... e tem esse fogo todo.
— Exatamente! Eu nunca o traí lá. Mas ele me dar confiança e quando eu viajo já viu né? Ninguém é de ferro. Passar dias fora de casa e não dar umazinha. Experimentar coisa nova. E olha que eu casei virgem hein!
— Duvido! — Disse eu sorrindo.
—Verdade! Mas eu só o traí três vezes. Cinco, porque foi três vezes com um só. Mas só foram três homens!
— Você ainda diz só! Acho que vou tomar o seu conselho mesmo para não casar. Sendo assim pra ser corneado... Casamento não presta mesmo! Quer dizer então que eu sou o quinto?
— Ah não! Assim de beijo na boca é bem o oitavo por aí.
— Minha nossa Senhora!
— Não devia ser tão religioso cometendo pecado assim!
A viagem para mim estava chegando ao final! Passou rápida naqueles amassos. Quando chegou o final peguei a bolsa em cima e ela me puxou pela camisa para dar o beijo de despedida e soltar mais uma pilhera para me aguçar o desejo.
— Eu ia adorar dar pra você! Você parece ser bem quente! Mas infelizmente o destino nos traiu, não nos veremos nunca mais!
— Quem sabe um dia! O mundo dar voltas!
— Estou super excitada, e você também que eu estou vendo. Quando eu chegar em casa vou dar uma com meu esposo pensando em você. Posso?
— Fique a vontade — Respondi num tom de gracejo e me tremendo de tesão.
— Ou prefere que eu faça sozinha pensando em você?
— Sozinha, claro.
— E você pensa em mim também tá?
— Combinado.
Desci do ônibus e ela me acenou pela janela com um tchau e soltou um beijo. Nunca mais eu a veria. Tinha certeza. Assim como todos ali dentro. Nem sabia se ela era quem realmente estava dizendo que era. Se era casada, se tinha filhos... Mas usava aliança, isso eu pude ver. O ônibus se foi e fiquei pensando que a vida da gente é exatamente como um ônibus: a vida ou a viagem pode ser longa ou curta, prazerosa ou não. Tem coisas ruins como o velho ao meu lado tossindo e fedendo. Tem coisas que agente deseja, não consegue, mas depois percebe que foi bom para gente não ter aquilo e tem coisas boas como... Ah, que merda não perguntei o nome dela!
Na vida e no ônibus é assim, tudo passa! Que seja bom ou ruim, tudo passa! Seja no meio da viagem ou no final tudo fica para trás e o ônibus continua andando, pegando gente, soltando gente...
É, vou esperar a volta para ver o que acontece, sempre uma surpresa assim como na vida da gente. Coloquei a bolsa nas costas e segui destino.

2 comentários:

Shirlaynn disse...

adorei, adorei, adorei!!!!!

esse aí é uma leitura bem estimulante e prazerosa de ler! Vc hein é expert nessa área!!

parabéns!! continue sempre desse jeitinho!!

alexandra disse...

Parabéns.Adorei o texto.