sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A VISITA

— Sua bênção vovô
— Deus te abençoe meu filho. Cadê Francisca, não veio não? — Perguntou-me com a voz trêmula por causa do mal de Parkinson.
— Não sei não vovô.
— E você não vem de casa não?
— Venho vovô, mas eu acho que o senhor está confundindo, eu sou filho de Lúcia.
— Ah! É mesmo. Como é que está seu pai? Ainda está trabalhando em Fortaleza?
— Está vovô. Eu acho que este fim de mês ele virá.
Era sempre assim. Vovô Jorge nunca se lembrava das pessoas assim logo de cara. Mas bastava um roteiro e o velho se achava na conversa. Antes confundira que eu era Diogo, meu primo, filho de minha tia Francisca, mas bastou que eu lhe dissesse que era filho de Lúcia e logo ele se lembrava quem era eu e quem era meu pai.
Eu adorava conversar com vovô, falar dos tempos em que ele servira ao Exército Brasileiro, dos tempos de namoro e das estórias de sua juventude. Vovô seria só no mundo, se não fosse os descendentes, pois fugira de casa aos treze anos de idade com medo de uma surra que o seu pai lhe daria. Ali não tinha irmãos, sobrinho nem primos.
Ele havia ido buscar água num jumento, enchia dois depósitos todos os dias no riacho Olho D’água. Naquele dia, o riacho chorava água lentamente e vovô enchia os barris com uma cuia feita de cabaço. Como demorou muito, no caminho viu um amigo do seu pai que lhe disse: “Vá logo pra casa Jorge que seu pai está lhe esperando pra dá-lhe uma pisa. Ele disse que você estava demorando demais e hoje ia arrancar-lhe o coro de uma surra”.
Vovô Jorge nunca soube se era verdade, mas arreou os barris do jumento e o abandonou amarrado a um pé de aroeira. Até hoje nunca mais voltou para casa, em Bananeiras, na Paraíba. Vivia sempre com essa dúvida de não ter voltado pra saber se apanharia mesmo ou era só uma mentira para fazer medo ao moleque taludo, filho de Seu Antônio, que era um pai severo e rude. Mas ao mesmo tempo era magoado, pois vivia trabalhando o tempo todo para ajudar o pai e vez por outra era surrado de maneira violenta por seu Antônio.
Vovô já carregava noventa e dois anos nas costas. Tinha uma família grande a partir dele, pois não conhecia irmãos, nem sabia onde estavam. Sabia que os tinha, mas não fazia idéia de onde poderia encontrá-los.
Depois de algum tempo resolvi ir embora. Acariciei suas mãos, sentindo a fina pele e as veias expostas e verdes. Era visível tamanha fraqueza de um corpo que um dia fora de guerra, que havia brigado, lutado. Tornara-se tão indefeso o pobre vovô. O tempo lhe roubara a juventude.
— Eu já vou vovô Jorge!
— Até mais, mande lembrança para Lúcia.
Saí, liguei o carro e vovô me olhava de longe com os olhos encoberto pela catarata, matinha a mão direita asteada e amparando o franco sol da tarde. Novamente acenei para vovô, ele acenou de volta.
— Até outro dia
— Até. — Respondi saindo.

2 comentários:

talitakatarina disse...

Amigooo, sou seu primeiro comentario? Adorei seu texto. Vc escreve maravilhosamente bem! Continue assim!
Sucesso!

Cefas Carvalho disse...

A velhice é sempre um tema pungente e dificil. Parabéns pelo texto e pelo blog.